Para um corpo Preso, de Julia Mendes – 332 poemas No 74


sound-iconouça o poema Para um corpo Preso, de Julia Mendes

julia mendes

então agora acredito na informalidade mais do que em qualquer coisa
acredito neste traço rascunhado no qual andei tentando desenhar teu rosto
acredito em ana c
acredito na chaleira da sofia/bruno intrometendo-se na gravação de um disco
acredito em habitar as coisas cotidianas como habitar um ventre

acredito na desordem que fazem estes livros na prateleira mesmo enfileirados um a um
e por ordem alfabética

acredito na lata de leite vazia guardada no armário da cozinha
há anos

acredito em algumas frases do piva
mas acredito pouco em shakespeare
acredito em pequenas poças de sangue da minha menstruação
e a cor engraçada que fazem no banho

acredito – por que não? – na urgência dos meus amigos
mas acredito pouco na palavra amigos porque os amo como se fossem amantes

já acreditei mais no jornal
e hoje em dia acredito apenas
na sujeira que faz nos meus dedos
ou nos recortes que podem formar frases
esquisitas
acredito no cansaço que os meus livros me causam
acreditamo-nos porque parei de habitá-los tanto quanto eles a mim
e no entanto estamos aqui de frente um ao outro
mantendo esta estranha
e desinteressada relação

acredito nos palhaços pois odeio os palhacinhos de sinal
e odeio os palhaços do dumbo
mas acredito nos trágicos
como o clown bêbado de heinrich böll
sozinho e ácido
ou o palhaço que costuma deitar-se comigo

acredito no sexo
e o tempo que dura
acredito no amor
pois foi a única coisa que devotei a vida inteira
a essas pequenas bugigangas

acredito em dores de garganta
e dores menstruais
acredito num poema do helder recitado por ele mesmo no youtube
acredito em arrepios imaginários
como uma lembrança
acredito que ao tentar escrever
a coisa me sufoque
como se da tinta da caneta insurgisse um poema de volta
para minha própria boca muda

acredito mais num cubo do que num quadrado
mas acredito que um quadrado pode ser
mil vezes mais violento
do que um cubo
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acredito no mais
em quase todas as coisas
pois deixo de acreditar instantaneamente em todas as outras

e este é o único exercício que me unta incha
encarna
e assim mesmo
me espanta
e eu torno a ser
como todas as outras coisas uma cadeira
ou um objeto menor
sem ambição alguma
só a ocupação de um espaço
sem tempo porque o tempo não pertence as coisas
as coisas pertencem ao tempo e aos tempos que necessitarem
e o tempo é uma gelatina grossa e fluida
sem função
a não ser o entretenimento das pessoas
como a imaginação ou o ar
mas o espaço está aqui
e tudo é, ainda que não exista,
volume

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