Primeira carta para um Clown, de Julia Mendes – 332 Poemas No 86


sound-iconouça o poema Primeira carta para um Clown, de Julia Mendes

Julia Mendes

amar você é como pôr o coração nas mãos
o tempo todo
como afastá-lo da boca do próprio
desejo
como banhá-lo com as dores invisíveis
da compreensão de um amor não cumprido
mas como é possível compreender
o amor satisfeito?
arrancá-lo e ter a certeza
de que se poderia viver sem ele
e que deste espaço
oco
onde certamente deve residir
algum “mar de certezas mor tas”
vá brotar tulipas
ou campos de trigo
mas tudo o que resta
é uma pequena
e esfomeada
trepadeira
amar você é como degolar
a si mesmo
como beijar uma boca gritando
dentadas na nuca
sempre amoladas frente à
uma presa
mas não há presas
no curso de um redemoinho
deito sobre a mesa enquanto mal acabo
um copo de gim
e já voltamos à primeira ação do dia
sonho com corsos, bosques, barcos
tenho a triste constatação
de que [o amor] não mata
(infecciona)
então
esmago os dedos entre os travesseiros
quieta
lenta
tendo que livrar espaço
pergunte ao eliot
se é este o jardim
em que todo amor termina.

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