O Rio, de Ferreira Gullar – 332 poemas No 119


Ferreira-Gullar (4)

Ouça

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

 

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Vou-me Embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira – 332 poemas No 118


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Ouça

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Se tudo der Errado, de Marcelo Yuka – 332 Poemas No 117


marceloyuka

Ouça

Se tudo der erradoNós ganhamos por w.o.
se tudo der errado
os helicópteros ocuparão
o lugar dos anjos
no nosso imaginário

se tudo der errado
ainda teremos
alguém no meio do caos
comemorando o aniversário

se tudo der errado
eu prefiro ser errante
que solitário

se tudo der errado
que tenhamos a coragem
de admitir
como último apelo
que o mundo é lindo
e nossos fantasmas
estão vindo do espelho

 

O Espinho Inevitável, de Guilherme Gontijo Flores – 332 Poemas No 116


sound-iconOuça o Poema O Espinho Inevitável, de Guilherme Gontijo Flores

Guilherme Gontijo Flores
O Espinho inevitável
encravado sob a pele

se ao fim não sai
acaba

inevitavelmente
pele

& seja chaga seja
dor devida
inominada
é árido aprender
o seu abraço

mas mesmo assim
o devorar do espinho é uma dádiva.

A vida Bate, de Ferreira Gullar – 332 Poemas No 115


Ferreira-Gullar (4)

OuçaOuça o Poema

Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
– a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!

O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.

Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina.

de mãos Vazias, de Jofre Rocha – 332 Poemas No 114


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sound-icon
as mãos trago-as vazias
só nos olhos conservo o sonho.
e no íntimo
guardo recordações amargas
do género dito humano.
as mãos trago-as vazias
mas volto rico de presentes
para todos vós, camaradas.
minha bagagem de escravo forro,
ei-la:
um punhado de folhas soltas
contendo meus versos tristes
sabendo a fome e maresia.
as mãos trago-as vazias
e minha bagagem são só versos tristes…
mas para vós, camaradas
trago um peito aberto
para as dores do nosso sofrer
trago os braços abertos
para a solidariedade dum abraço.
volto de mãos vazias
de mãos vazias sim, camaradas
mas nos olhos conservo o sonho.

Rumo, de Alda lara, 332 Poemas No 113


alda Lara

Wiki: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alda_Lara_%28escritora%29
Referencia: http://www.jornaldepoesia.jor.br/lara01.html

Ouça

É tempo, companheiro!
Caminhemos…
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra…

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos, companheiro…
É tempo!

Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras…
e o meu suor se junte ao teu
suor, quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!

Vamos!
que outro oceano nos inflama…
Ouves?
É a Terra que nos chama…
É tempo, companheiro!
Caminhemos…

Noite, de Alda Lara – 332 Poemas No 112


alda Lara

Wiki: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alda_Lara_%28escritora%29

Ouça
Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares…,
perdidas em mistérios…
Há cantos de tungurúluas pelos ares!…
…………………………………………….
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros…
………………………………………………
Noites africanas tenebrosas…,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos…

E os meninos brancos cresceram,
e  esqueceram
as histórias…

Por isso as noites são tristes…
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes… como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas…
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas…

É que os meninos brancos…,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas…

Os meninos-brancos… esqueceram!…

O Choro de África – 332 poemas No 110


Agostinho Neto

Agostinho Neto

Wiki: http://pt.wikipedia.org/wiki/Agostinho_Neto
Referencia do Poema: Jornal da Poesia

Ouça

O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África

e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida

fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África e’ um sintoma

Nos temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas – por nós!
E amor
e os olhos secos.

Noite – de Agostinho Neto – 332 poemas No 111


Agostinho Neto
Agostinho Neto

Wiki: http://pt.wikipedia.org/wiki/Agostinho_Neto
Referencia do Poema: Jornal da Poesia

Ouça

Eu vivo
nos  bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairos de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.