Deus ex-machina, de Eduardo Lacerda – 332 Poemas No 97


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Eduardo Lacerta

Pouco me importa
que a chuva me molhe
se estou à calçada.

Mas, se estou à calçada

(a um passo deste fluxo,
que me separa do outro
lado, dessa enxurrada
que é de lama, mistura
de água e desta gente

de barro)

é porque eu não misturo.

E, se por descuido,
um Deus ex-machina,
por simples desvio
do buraco e da lombada
alterar o meu destino,
eu sigo em frente, parado.

Pois ainda que grite

: fiho-da-puta!

ao súdito sem culpa

Nada secará a água
que não veio

da chuva.

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Rua: sem Saida, de Eduardo Lacerda – 332 Poemas No 93


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Eduardo Lacerta

Deitamos sobre o asfalto.

(nossos corpos atravessados,

era este o nosso pacto)

Esperávamos pelos carros,
mas os carros não passavam.

(Era noite, e os carros não passavam)

Não seríamos atravessados.

/ Mas você se levantou
passou pelo meu corpo
e depois se deitou

(deitou do outro lado)

Juntos recriamos o medo

: máquina-corpo-poema

de que se passarem por cima

nunca mais cresceremos /

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Candelabro, de Eduardo Lacerda – 332 Poemas No 83


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eduardo lacerda

 

Já à primeira vez que foi a um
cemitério, a mãe cobriu seus
olhos que choravam e sussurrou:

– Nunca acenda velas em casa,
que os espíritos acostumam
e não raro nos acompanham –

Nunca mais acendeu
velas em casa, tinha era
medo dos espíritos.

Teceu-lhe a vida muitos passados,
outras passagens ao cemitério. (Das
últimas vezes já as trazia roubadas.)

Nunca quis acender velas em casa,
tinha era medo dos espíritos. Teve
depois, muitos, muitos anos depois
medo da solidão. E acenderia estes
presentes: a gift to the ghosts, pois
os espíritos acostumam e, não raro,

nos acompanham.

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A útima ceia, de Eduardo Lacerda – 332 poemas No 75


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eduardo lacerda

Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /

Já não me encaixo
depois que aprendi

a olhar de lado
e sair por baixo.

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