Poema A um Olmo Seco, de Federico Garcia Lorca – 332 Poemas No 17


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Lorca

No velho olmo, fendido por um raio,e pela metade apodrecido,
com as chuvas de abril e o sol de maio,
algumas folhas novas têm rompido.
Olmo centenário nesta colina
que o Douro Lambe! O musgo amarelenteo
mancha a córtex, quase albina,
do tronco carcomido e poeirento.
Não será, igual aos álamos cantantes
que guardam o caminho e a ribeira,
pousada de rouxinóis vibrantes.
Um exército de formigas em fileira
nele vai trepando e, em suas entranhas,
teias cinzas urdidas de aranhas.
Antes que te derrubem, olmo do Douro,
o lenhador com seu machado e um vindouro
carpinteiro te reduza a trave de sineira,
varal de carruagem, canga de carroça;
antes que te ardas rubro na lareira,
queimes na miserável choça,
a beira de um caminho;
antes que te arranque um torvelinho
e te rache o sopro das serras brancas;
antes qe o rio até ao mar te arraste
por vales e barrancas,
olmo, no meu caderno anotar quisera
a graça da verde rama renascida.
Meu coração espera
também, rumo a luz e ruma a vida,
outro milagre de primavera.