O Espinho Inevitável, de Guilherme Gontijo Flores – 332 Poemas No 116


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Guilherme Gontijo Flores
O Espinho inevitável
encravado sob a pele

se ao fim não sai
acaba

inevitavelmente
pele

& seja chaga seja
dor devida
inominada
é árido aprender
o seu abraço

mas mesmo assim
o devorar do espinho é uma dádiva.

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Se eu Amasse, de Guilherme Gontijo Flores – 332 Poemas No 102


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Guilherme Gontijo Flores

SE EU AMASSE conforme a simetria
geométrica dos transes hipnóticos
(prismáticas paixões dos nervos óticos
sobre uma forma hexagonal vazia)

com a fé de que tudo acabaria
sem o toque acrobático do acaso
– se soubesse que tudo é calmaria
que tudo é pele tudo é plano & raso
nas margens de um soneto sempre reto
(…..)

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Orações 1, de Guilherme Gontijo Flores – 332 Poemas No 92


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Guilherme Gontijo Flores

coisas que não sei
ritmo de cores
em contínuo despertar
de fluxo indiferente
– outrosser
outraver de mim –
ó corrios
vinde

em miríades do desvario
as santas desessências canto
triunidade interior
imparte intoda
do diviníssimo atom
seu – onde a voz
do eterno desce
suave

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Song of Itself, de Guilherme Gontijo Flores – 332 Poemas No 82


sound-iconouça o poema   Song of Itself, de Guilherme Gontijo Flores

Guilher Gontijo Flores

polar bear track 5 diz o ipod enquanto estico o pé pra fora do ônibus
& aponto para a borda do passeio público
senhoras junto ao lago espreguiçam seus braços nos modos do tai chi
apalpo o bolso pelo fumo insalubre que insisto em carregar nas manhãs cachorros & madamas cruzam meu caminho sem pestanejar

de fumo em riste ensaio apertar um cigarro a passos largos
são truques estranhos que faço & me imagino caubói spaghetti
montado em seu cavalo apertando o palhoso numa só mão
– seus olhos malignos & calmos seu fumo maligno & calmo a câmera
em close ganha força pela trilha sonora –
& causo algum frisson em dois adolescentes
que neste instante me tomam por herói maconheiro em praça pública

eu sou o maconheiro em praça pública mesmo fumando tabaco
sou cadela sadia que conduz sua dona de casa ao passeio como variante
do tédio diário
sou dois ou mais adolescentes em busca de crimes menores & heroicos
do asfalto
sou mesmo o asfalto do passeio onde passo & que também me atravessa
(fiz um pacto contigo walt whitman
sou-te & deixo-te fora dos pedestais
entregue ao gosto dos pedestres)
& poderia comparar toda esta cena a um quadro de maliévitch
ou às cores de godard
para assim dar mais gosto erudito a esta composição canhestra delendum momentum penso que bem poderia ser a morte que espreita
o cidadão mais gordo que sou & corro do outro lado deste parque num suor de bicas

a cocota sarada o estudante vadio o professor de latim nossas baratas
metropolitanas nos bueiros as curvas suaves dos galhos
do ipê sem flor
a próxima faixa deste ipod em minha mão que denuncia minha classe
em modos neomarxistas
(também fiz pactos contigo fernando pessoa diversos
mas não pretendo cumpri-los todos & te estendo a mão como um amigo)
as cores de godard ou pinturas de mailévitch ou goya previamente
não citado
um neomarxista de barba aparada com tênis allstar & calças milimetricamente surradas
o parque termina antes da música o poema nunca termina o passeio
segue adiante

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