Vestia um vestido vinho, de Juliana Bernardo – 332 Poemas No 90


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Juliana Bernardo

vestia um vestido vinho que se puía no corpo
um vestido que esteve em outros corpos

ela é o cetim e o soco
o veludo e o anzol

o vinho vem do seu seio de pedra
com gosto de susto e terra
nela nossa origem desce pelos quadris
alvorada líquida sob o zíper da noite

ela é o aquário teso no fundo da boca
onde uma voz gêmea se bifurca
e os sons se movem no súbito colapso de um beijo

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Correspondencias, de Juliana Bernardo – 332 Poemas No 81


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juliana bernardo

por favor, não pare de me falar sobre você
nos ligamos – convites anelados
beijos são palavras abertas
eletricidade escapa, cabos se partem
em que parte te encontro?
não confie na memória
ela é um correio lotado de cartas brancas
não suspire
o tempo é corrosivo porque mora nos silêncios
de repente enferruja cartas cabos lábios
enferruja a gente
não é certo não é certo, suspiro
toques me despertam
mãos de prata como bandejas
e debaixo da mesa pernas encontram pernas
vamos arquitetar uma fuga com elas
arquitetar uma ponte e envelhecer sem segredos
temo que seja o fim da ligação
terrível enxaqueca
poupe os anúncios em branco
anúncios são convites malcriados
anoto na passagem: preciso de um mapa
nossa correspondência está aos pedaços
quem leu a última parte?
você sempre faz mapas quando está triste?
é o fim. Não confio na memória

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