A Canção Desesperada, Pablo Neruda – 332 Poemas No 57


sound-iconouça A Canção Desesperada, de Pablo Neruda

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Pablo Neruda1

Aparece tua recordação da noite em que estou. O rio reúne-se ao mar seu lamento obstinado.
Abandonado como o impulso das auroras. É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre meu coração chovem frias corolas.
Oh sentina de escombros, feroz cova de náufragos!

Em ti se ajuntaram as guerras e os vôos.
De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto.

Tudo que o bebeste, como a distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Era a alegre hora do assalto e o beijo.
A hora do estupor que ardia como um faro.

Ansiedade de piloto, fúria de um búzio cego
túrgida embriaguez de amor, Tudo em ti foi naufrágio!

Na infância de nevoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

Tu senti-se a dor e te agarraste ao desejo.
Caiu-te uma tristeza, Tudo em ti foi naufrágio!

Fiz retroceder a muralha de sombra.
andei mais adiante do desejo e do ato.

Oh carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
e em ti nesta hora úmida, evoco e faço o canto.

Como um vaso guardando a infinita ternura,
e o infinito olvido te quebrou como a um vaso.

Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher do amor, me acolheram os seus braços.

Era a sede e a fome, e tu foste à fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.

Ah mulher, não sei como pode me conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!

Meu desejo por ti foi o mais terrível e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais tirante e ávido.

Cemitério de beijos,existe fogo em tuas tumbas,
e os racimos ainda ardem picotados pelos pássaros.

Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos traçados.

Oh a cópula louca da esperança e esforço
em que nos ajuntamos e nos desesperamos.

E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra apenas começada nos lábios.

Esse foi meu destino e nele navegou o meu anseio,
e nele caiu meu anseio, Tudo em ti foi naufrágio!

Oh imundice dos escombros, que em ti tudo caía,
que a dor não exprimia, que ondas não te afogaram.

De tombo em tombo inda chamas-te e cantas-te
de pé como um marinheiro na proa de um barco.

Ainda floris-te em cantos, ainda rompes-te nas correntes.
Oh sentina dos escombros, poço aberto e amargo.

Pálido búzio cego, desventurado desgraçado,
descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a dura e fria hora
que a noite sujeita a todos seus horários.
O cinturão ruidoso do mar da cidade da costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.

Abandonado como o impulso das auroras.
Somente a sombra tremula se retorce em minhas mãos.

Ah mais além de tudo. Ah mais além de tudo.
É a hora de partir. Oh abandonado.

Final, de Pablo Neruda – 332 Poemas No 56


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Pablo Neruda1

Foram criados por mim estas palavras com meu sangue, com minhas dores, foram criadas!

Eu entendo amigos, eu entendo tudo.
Elas se misturaram inadvertidamente nas minhas, Eu entendo, amigos!
Como se eu quisesse voar para mim e chegassem Socorrendo-me com suas asas das aves,
todas as asas,
estas palavras vieram assim estrangeiras
desatar a embriaguez escura de minha alma.

É o amanhecer, e parece
que não foram apertadas as angústias
em laços tão terríveis ao redor da garganta. E porém,
foram criados,
com meu sangue, com minhas dores,
eles foram criados por mim estas palavras!

Palavras para a alegria
como era meu coração
uma coroa de chamas;
palavras do uma dor que se prega, dos instintos que remoem,

dos impulsos que ameaçam,
dos desejos infinitos,
das inquietudes amargas,
palavras do amor que floresce em minha vida
como uma terra vermelha cheia de cogumelos brancos.

Não ajustaram em mim. Nunca ajustaram. De menino minha dor foi o grito
E minha alegria foi o silêncio.

Depois os olhos
esqueceram das lágrimas
varrido pelo vento do coração de todos.

Agora, me fale amigos, onde onde esconder aquele afiada fúria dos soluços.

Fale-me, amigos, onde
esconder o silêncio para que nunca ninguém, sinta isto com a audição ou com os olhos.

vieram as palavras, e meu coração,
incontáveis como um amanhecer,
rompendo as palavras e se prendem seu vôo,
e nos vôos heróicos nos levam e nos arrastam, abandonado e louco, e olvidado debaixo delas como um pássaro morto debaixo das suas asas.